terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sérgio Leone

O diretor Sérgio Leone deixou uma marca indiscutível para a história do cinema. O italiano trouxe uma nova roupagem aos já desgastados filmes de faroeste na década de 60, conquistando um público fiel de trabalho e resgatando a glória dos velhos filmes de bang-bang no mundo inteiro. Com ele surgiu o gênero Western Spaghetti, faroeste dirigido em locações italianas que simulavam o velho oeste americano e que utilizavam muito sangue em suas cenas.




Leone começou a carreira com filmes históricos de pouca repercussão, mas ficou primeiramente famoso com a trilogia dos dólares, composta por “Por um punhado de dólares” (1964), “Por uns dólares a mais” (1965), e “Três Homens em Conflito” (1968), e trouxe fama mundial a Clint Eastwood no papel do Homem sem nome, protagonista dos três filmes. As produções tiveram um baixo orçamento, mas fizeram um sucesso estrondoso que consagraram o diretor. Leone passou a ser conhecido por não apresentar histórias com roteiros muito elaborados, mas sim caprichar na parte técnica e em cada elemento da direção.

Mas isso mudou quando ele lançou “Era uma vez no Oeste”, considerado até hoje um dos melhores faroestes já produzidos. Com grande maturidade, Leone toca em temas políticos e consegue emocionar o espectador com uma trama surpreendente e extremamente tocante. E isso tudo sem perder as suas marcas registradas. Após o fracasso de “Quando explode a vingança”, Leone entrou em depressão e se afastou temporariamente da carreira como cineasta. Tudo isso para voltar em 1983 com “Era uma vez na América”, que retomou parte do prestígio perdido de sua carreira de um modo bem diferente. Em vez das paisagens do deserto, o italiano produziu um belo filme sobre a máfia no cenário urbano de Nova York.



Sérgio Leone possuía diversas características que o diferenciava dos demais diretores. A principal delas talvez seja o cuidado com a elaboração de cada uma de suas cenas. Tudo era montado milimetricamente. Ficou conhecido pelos famosos duelos entre os personagens e utilizava elementos para aumentar a tensão antes de cada um deles, especialmente no duelo final que decidia o filme. Por isso ressaltava a importância das interpretações e expressões dos atores. Esses eram os casos dos closes nos rostos, que mostravam o suor e o sofrimento de cada personagem antes da batalha, e também em suas armas. Tornava-se um duelo de olhares, extremamente psicológico, antes do duelo em si.

Suas narrativas eram lentas e desenvolvidas. Filmou diversos planos-sequência, e em diversas vezes a ação se tornava muito mais importante do que um diálogo. Também merecem destaque as belas locações do diretor. Em um cenário absolutamente desolador e sem futuro, populações se amedrontam diante dos duelos que acontecem em suas cidades. E é justamente essa atmosfera da cidade vazia, vista da perspectiva do personagem com o perigo podendo chegar a qualquer momento, que aumentava a expectativa da cena. Para colaborar ainda mais com isso contou com a parceria eterna do músico Enio Morricone, responsável por algumas das trilhas sonoras mais marcantes dos westerns. Com uma mistura de instrumentos, assobios e corais masculinos trouxe uma identidade ainda maior ao filmes de Leone.



Seus personagens também eram dotados de grande sarcasmo, o que garantia alguns bons momentos de humor. Porém não possuíam grande complexidade e tinham suas motivações e personalidades desvendadas claramente (exceto em “Era uma vez no Oeste”). O diretor conseguia trazer a identificação do espectador com seu personagem principal e as vezes até uma aproximação com o vilão. Mesmo os mocinhos de seus filmes, não eram totalmente colocados como virtuosos pelo diretor e possuíam interesses que os colocavam muito próximos dos vilões. Logicamente alguns deles não possuíam nenhum outro interesse que não fosse o de ganhar dinheiro facilmente, não importando o que tivesse que fazer. Isso tornava qualquer tipo de aliança realizada, fácil de ser desfeita a qualquer momento.



Enfim, Sérgio Leone foi e ainda é o ícone de diversos amantes do cinema. Com técnicas primorosas e bem desenvolvidas deixou uma marca inesquecível em um gênero só seu. Vale muito a pena acompanhar a carreira do cineasta e compreender tudo o que esse italiano ofereceu para o mundo da sétima arte.

Confira algumas das cenas mais marcantes dos filmes realizados pelo diretor:
 

 
 

 
 

 

sábado, 8 de janeiro de 2011

Curtindo a vida adoidado

Curtindo a vida adoidado é um dos maiores clássicos do cinema dos anos 80 e que resultou na consagração total da bela carreira de John Hughes como diretor, produtor e roteirista. O longa se tornou um símbolo juvenil e passou a ser extremamente parodiado, imitado, admirado e até mesmo criticado por muitos, resultado da polêmica que envolve sua trama. A trama apresenta o adolescente Ferris Buller (Ma, que simula uma séria doença aos pais para poder faltar a aula naquele dia. Com isso, ele chama seu melhor amigo Cameron Frye (Alan Ruck) e sua namorada Sloane Peterson (Mia Sara) para saírem por vários locais da cidade e aproveitarem o melhor dia de suas vidas. Com isso, eles passam por diversas aventuras e desafios para que seus pais não suspeitem de nada, nem o diretor da escola Edward Rooney (Jeffrey Jones) e nem a irmã de Ferris, Jeanie Buller, (Jennifer Grey) os atrapalhem.




Hughes superestima o poder dos adolescentes e lhes confere inteligência e até mesmo a capacidade de manipular os adultos dentro da trama, que são retratados até mesmo de forma estereotipada na trama. Assim, os jovens deixam de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas complexos. Os pais de Ferris fazem parte daquela família americana aparentemente considerada ideal e perfeita, que acredita o tempo todo em seu filho e não suspeita de nada errado, nem mesmo quando o diretor Rooney os adverte. O trio protagonista retrata o sonho de todo adolescente: poder ter um dia livre longe das obrigações escolares (retratadas como algo insuportável) e da pressão por resultados podendo aproveitar um dia da forma que bem entenderem. Até por isso o filme foi visto criticado e visto como estímulo para que os jovens “quebrem as regras” e desobedeçam seus pais. Isso fica ainda mais claro com a transformação de Jeanie ao fim da trama, ao proteger seu irmão do diretor, e de ter se arrependido de não ter aproveitado seu dia do jeito que queria.




O grande objetivo de Ferris é não apenas aproveitar seu dia com sua namorada, mas também fazer com que Cameron também aproveite e se divirta de uma maneira que ele nunca se divertiu antes. Ferris exalta o tempo todo a importância dessa descontração e de não se preocupar com o que o pai ou qualquer outra pessoa pense disso. A cena da destruição da Ferrari de seu pai, com a qual ele se preocupou tanto ao longo do filme, exalta sua perfeita transformação ao se revoltar contra as imposições do pai. Ferris também é visto como exemplo na escola em que estuda e o diretor Rooney mostra preocupação com o tamanho da influência que o garoto exerce sobre os alunos em sua escola. Com isso, ele convence a todos de que está com uma grave doença e consegue até mesmo arrecadar com isso. O protagonista também conversa com o público olhando diretamente para a câmera, recurso muito utilizado por Woody Allen.



Além disso, também é exibida a felicidade com a cultura consumista e capitalista da época, ou seja possui um ideal político forte mas que acaba passando despercebido. A trama do filme é simples, pouca complexa de ser entendida e pouco original em relação a outros filmes do gênero. A trama do filme é simples, pouco complexa de ser entendida e pouco original em relação a outros filmes do gênero. Mas a maneira como Hughes a constrói é que se torna inesquecível. Desde as atrapalhadas do diretor Rooney ao tentar flagrar as armações de Ferris, até a identificação com o protagonista e suas diversas aventuras e tentativas de escapar dos pais, tudo ficou eternizado para essa geração da época e para as gerações futuras. O filme se tornou um lema de vida para diversos jovens. Afinal o lema de Ferris é: “Eu já disse isso uma vez. Vou dizer novamente: A vida passa muito rápido; se você não parar e olhar ao redor, você pode perdê-la”



Confira o trailer:

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Principais estreias em 2011

Começa 2011 e com ele novos filmes chegam ao cinema a cada semana. O primeiro semestre é composto especialmente por filmes elogiados pela crítica e que concorrem aos prêmios dos principais festivais de cinema. A partir do fim do primeiro semestre e segundo semestre, entre os que já estão confirmados, começam a chegar mais filmes comerciais, especialmente sequências de filmes que já fizeram sucesso. Também há tendência para a aposta forte na tecnologia 3D. O cinema nacional também marca presença, mas a primeira vista não há nenhuma produção que podemos colocar como futuro sucesso absoluto no país. Confira a lista e os trailers dos principais filmes:


JANEIRO

Dia 7

"Além da Vida", de Clint Eastwood

"Enrolados", de Nathan Greno
Dia 14

"O Mágico", de Sylvian Chomet

"O Turista", de Florian Henckel von Donnersmark

Dia 21

“Bravura Indômita”, dos Irmãos Coen

"Zé Colmeia", de Eric Brevig

"Tio Boonmee, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas", de Apichatpong Weerasethakul - ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes

Dia 28

"Um Lugar Qualquer", de Sofia Coppola – vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza

"Biutiful", de Alejandro González Iñárritu – forte concorrente aos prêmios em língua estrangeira



FEVEREIRO

Dia 4

"O Discurso do Rei", de Tom Hooper – líder de indicações para o Globo de Ouro com 7 indicações

Dia 11

"Cisne Negro", de Darren Aronofsky – líder de indicações ao prêmio Critics’ Choice com 11 indicações e considerado um dos favoritos ao Oscar

"O Vencedor", de David O. Russell



Dia 18

"Rabbit Hole", de John Cameron Mitchell
"O Besouro Verde", de Michel Gondry

Dia 25

"Bruna Surfistinha", de Marcus Baldini
MARÇO

Dia 4

"Raul Seixas: o Início, o Fim e o Meio", de Walter Carvalho

"Lope", de Andrucha Waddington

Dia 11

"Família Vende Tudo", de Alain Fresnot

Dia 25

"Sucker Punch Mundo Surreal", de Zack Snyder

"The Tempest", de Julie Taymor

"VIPs", de Toniko Melo



ABRIL

Dia 8

"Fúria sobre Rodas", de Patrick Lussier

"Rio", de Carlos Saldanha

Dia 15

“Pânico 4”, de Wes Craven

Dia 29

"Thor 3D", de Kenneth Branagh

MAIO

Dia 6

"Velozes e Furiosos 5"
"Piratas do Caribe 4", de Rob Marshall



Dia 27

"Se Beber, Não Case! Parte 2", de Todd Phillips

“Kung Fu Panda 2”, de Jennifer Yuh Nelson

JUNHO

Dia 3

"X-Men - First Class", de Matthew Vaughn

Dia 17

"Lanterna Verde", de Martin Campbell

JULHO

Dia 1

"Transformers: Dark of the moon", de Michael Bay
Dia 15

"Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2", de D. Yates



Dia 22

"Assalto ao Banco Central", de Marcos Paulo

Dia 29

"Captain America: The First Avenger (3D)", de Joe Johnston

AGOSTO

"Os Smurfs" de Raja Gosnell

SETEMBRO

Dia 2

"War Horse", de Steven Spielberg

OUTUBRO

Dia 7

"Midnight in Paris", de Woody Allen
"Johnny English Reborn", de Oliver Parker

NOVEMBRO

Dia 18

"A Saga Crepúsculo - Amanhecer - Parte 1", de Bill Condon

DEZEMBRO

Dia 9

"Gato de Botas"
Dia 16

"Sherlock Holmes 2", de Guy Ritchie

Dia 29

"Missão impossível 4", de Brad Bird

sábado, 1 de janeiro de 2011

Irreversível (2002)

Após um período sem atualizações no site voltaremos com nossas atividades nromalmente com mais atualizações frequentes.

Irreversível não é um filme popular, nem tem a intenção de ser. É um filme forte e que não hesita de mostrar nada ao espectador. E é uma produção que vai ficar na sua mente por um bom tempo e te emocionar. E essa é exatamente a intenção do diretor Gaspar Noé.



A trama de Irreversível é basicamente simples. Um homem busca vingança e mata o homem que estuprou e matou a sua mulher. Poderia ser uma história simplória, se não fosse por alguns aspectos. A história se desenrola de trás para frente. Logo no começo da produção, aparecem os créditos, com os nomes invertidos. Depois acompanhamos a vingança dos amigos Pierre e Marcus, respectivamente ex e atual namorado de Alex, mulher morta e estuprada. Podemos notar o total desequilíbrio e loucura de Marcus, que aparentemente é algo inexplicável para o espectador. Porém, a medida que sua história é desvendada entendemos completamente a sua reação. Ao final do filme, que termina de maneira graciosa e pacífica, lamentamos que o assassinato e estupro de Alex tenha interrompido uma história tão bonita que estaria por vir com seu namorado Marcus.



Gaspar Noé não poupa nada do espectador. O diretor não hesita em mostrar as agressões de Marcus ao estuprador e de mostrar 15 minutos de um estupro absolutamente cruel. Assim, o contraste com a felicidade vivida pelos protagonistas se torna ainda mais profundo, o que realça seu efeito. No começo do filme, quando ocorrem os momentos de maior tensão, a câmera, colocado na mão, se move radicalmente, sendo muitas vezes difícil até mesmo de enxergar o que está acontecendo. Quando o filme começa a acalmar, os planos de câmera se tornam mais sutis e cuidadosos. O mesmo acontece com a iluminação da cena. As atuações de Monica Belucci e Vincent Cassel são excelentes e trazem toda a veracidade que o filme merece.



Irreversível pode ser considerado um verdadeiro ensaio da natureza humana. Gaspar nos mostra todos os sentimentos que a vida pode oferecer e que são suscetíveis a acometer qualquer um de nós. Com isso, até mesmo a violência e crueldade presentes na trama cumprem seu papel dentro do filme. Realmente inesquecível e uma aula de cinema.

Confira o trailer:

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A brilhante história de Mark Zuckerberg


Ontem assisti ao mais novo lançamento do diretor David Fincher (Clube da Luta, Se7en): A Rede Social. Confesso que entre tantas opções ruins de filmes em exibição no momento, fiquei com receio de assistir ao longa mesmo depois de ter lido boas críticas a respeito do mesmo.

Meu medo de ter perdido meu dinheiro (tal como as duas horas que viriam pela frente) foram embora logo no início da exibição. A história do jovem prodígio Mark Zuckerberg surpreende, e é impressionante assistir como o estudante da universidade de Harvard conseguiu em tão pouco tempo criar a maior rede social do mundo: o Facebook. 

Mesmo já tendo declarado publicamente que o filme não condiz com a realidade dos fatos, Zuckerberg não tem do que reclamar. Além da publicidade gratuita que o longa faz para o site, “A rede Social” ainda pode se destacar no Oscar do ano que vem.  Fato comprovado levando em consideração as 6 indicações ao Globo de Ouro de 2011 e por ter sido eleito o melhor filme do ano pelas associações de críticos de Los Angeles e Nova York.



Se você ainda não assistiu, vale muito a pena dar uma conferida nesse filme. 

domingo, 24 de outubro de 2010

Linha de Passe

Linha de Passe é um filme brasileiro de 2008 dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. Assim como acontece em outras produções do diretor como Terra Estrangeira e Central do Brasil, em Linha de Passe é retratada novamente uma temática muito próxima da realidade do brasileiro comum. Não há qualquer tipo de tentativa de mitificação ou romantização, nem de uma dramatização exagerada de uma determinada situação ou personagem. Todos vivem as dificuldades que pessoas reais de uma classe social mais baixa poderiam viver. Talvez esse seja o maior encanto desse filme. Um filme focado mais do que tudo em seus personagens.





Acompanhamos durante a trama a história de uma família paulistana de classe baixa composta por uma mulher grávida e seus quatro filhos que buscam incessantemente correrem atrás de seus sonhos para poderem ter um futuro melhor. Do início ao fim acompanhamos suas trajetórias e torcemos para que todos tenham um final feliz. Não há a presença de uma pai ou de uma figura masculina, o que afeta especialmente o caçula da família, Reginaldo. O personagem que Kaíque Jesus Santos interpreta com grande intensidade, busca no sonho de se tornar motorista uma maneira de tentar reencontrar seu pai, já que não se sente completamente bem no convívio com a mãe e os meio-irmãos. Para isso não hesita em passar horas até mesmo de madrugada andando em ônibus pela cidade inteira sem a preocupação de agradar ninguém.




João Baldasseri é Dênis, filho mais velho que tem que cuidar de um filho gerado acidentalmente que vive com a mãe. Para sustentá-lo, o rapaz de caráter duvidoso faz de tudo para conseguir dinheiro, mesmo que com métodos não tão honestos assim. Dinho, vivido por José Geraldo Rodrigues, trabalha em um posto de gasolina e enxerga em sua fé uma oportunidade de se sentir melhor e de acreditar em um mundo mais justo. Para comprovar isso, ele dispensa até mesmo o dinheiro oferecido pelo pastor de sua igreja, apesar de seus problemas financeiros. José é autêntico e seu personagem não hesita em chamar a atenção e justificar na falta de fé da mãe a ocorrência de tantas “desgraças”. A religião é retratada no filme de maneira respeitosa (apesar do padre não se mostrar tão respeitoso assim em alguns momentos com seus fiéis) como uma manifestação popular que consegue aproximar os mais variados tipos de pessoas.



Nesse mesmo patamar está o futebol. Na montagem do filme, os diretores equiparam as duas atividades às mãos erguidas ao céu pelos personagens. Vinicius de Oliveira leva a seu personagem Dario grande naturalidade e insegurança típica de um adolescente, especialmente ao seu futuro: ele pretende ser um jogador de futebol, mas já está com 18 anos e sem clube. Para isso, ele participa constantemente de peneiras para selecionar jogadores, mas também sente falta de uma ajuda financeira (a falta de dinheiro é um problema recorrente para todos) para levá-lo a um time. Mas assim, como a inconstante carreira de jogador, ele também passa por maus bocados, como na ocasião em que chega drogado depois de uma festa.



Por fim, a mãe de todos eles, a empregada doméstica Cleuza, vivida por Sandra Corveloni que foi premiada por sua atuação no Festival de Cannes, é uma mulher guerreira, batalhadora, apaixonada pelos filhos e busca o tempo inteiro o melhor para eles (nem que para isso seja preciso bater em algum deles ou dar uma bronca pesada). Sandra expressa extremamente bem as dificuldades que Cleuza passa a ter que criar quatro filhos e esperar mais um na barriga. Por conta da gravidez também se torna freqüente as queixas e brigas com sua patroa. Mas ela também encontra no futebol sua válvula de escape. Enquanto assiste aos jogos do Corinthians no estádio, ela foge da sua dura realidade e pode finalmente ter um momento de prazer.




O filme em diversos momentos possui um tom bem documental e sabe entrelaçar as histórias de todos os personagens de maneira clara e inteligente. A narrativa retrata a vida de seus personagens de maneira incompleta, não há um final e nem uma grande realização de algum deles durante a produção. Mas sim há a luta incessante em busca de um sonho e de uma vida mais digna, com os mesmos elementos presentes na vida real de qualquer pessoa. E é essa espontaneidade e essa simplicidade que faz com que Linha de Passe seja um filme belíssimo de ser assistido.

Confira o trailer:

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Segredo de seus Olhos


O Segredo de Seus Olhos é um filme argentino de 2009, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro. E não é pra menos. O longa não possui grandes momentos complexos e cheios de ação, mas impressiona pela simplicidade e intensidade dos sentimentos que envolvem os personagens. A trama conta a história de Benjamin Esposito (Ricardo Darin), oficial de justiça que decide escrever um romance sobre um estupro seguido de assassinato ocorrido há 25 anos. Esposito atuou na solução do crime, mas não conseguiu prender o acusado e agora busca reviver o passado para solucionar o crime. Ao mesmo tempo, ele descobre estar apaixonado por Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), que atuou com ele no caso, mas que já é casada e com filhos.




O grande tema da produção é mostrar as relações e arrependimentos que envolvem os atos e memórias do passado. A aposentadoria e a solidão dominam a vida de Esposito que sente incompleto e também percebe que deixou seus sentimentos mais verdadeiros para trás passando a conviver com um arrependimento perturbador e continuamente. Assim, ele procura reviver o passado, por mais que seja doloroso e impossível de ser modificado, como a única forma de enxergar algum tipo de futuro. Para isso, ele volta a se relacionar com os antigos personagens de sua vida como Ricardo Morales (Pablo Rago), ex-marido da mulher assassinada, e Irene, em busca de seu amor. O que torna a produção ainda mais interessante é o fato de se alternar momentos de seu presente com todas as mágoas mais marcantes que explicam seu passado até que consigamos entender Esposito por completo. E como seu amigo Sandoval (Guilhermo Francella) diz em certo momento do filme: “um homem pode mudar de tudo, de família, de mulher, de religião, de Deus. Só não pode mudar de paixão”. A frase, que na verdade remete à paixão do assassino pelo time de futebol do Racing (momento com grande ligação com os brasileiros também), é o grande resumo dos sonhos e anseios de Esposito.


                                         Equipe do filme na cerimônia de entrega do Oscar


Ganha destaque no filme as excelentes atuações de todos os atores. Com grande expressão verbal, especialmente focado no que os olhos podem transmitir. Além das lamentações e arrependimentos, o diretor Juan José Campanella também consegue trazer momentos de romance e até mesmo humor e descontração. Seu trabalho é fortemente baseado na força dos diálogos e das atuações. Mas isso não impede que ocorram situações de ação com uma acirrada perseguição ao assassino dentro do estádio de futebol. Aliás é com essa sequência que Campanella mostra enorme talento com um planos de câmera ágeis e eficientes. Também é comum que haja o foco em uma determinada expressão de um personagem com o fundo desfocado. E isso sem que exista necessariamente aproximação da câmera com o rosto do ator. Além de uma bela montagem com alternância entre o presente e o passado, também merece elogios a boa produção que envelhece de forma convincente o personagem de Darin. Em outras palavras, O Segredo de Seus Olhos é um filme imperdível, capaz de emocionar e mexer fortemente com os espectadores.

Confira o trailer: