sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Saneamento Básico o filme

Falar sobre o próprio cinema em um filme sem que o espectador perca o interesse pela trama não é uma tarefa fácil. E fazer isso de maneira engraçada se torna ainda mais complicado. Mas é o que conseguiu o diretor Jorge Furtado com o simples, mas extremamente divertido “Saneamento Básico o Filme”. A trama se passa na pequena cidade de Vila Cristal na Serra Gaúcha, desprovida de qualquer forma de saneamento básico. Os moradores se unem para tentar angariar recursos para a construção de uma fossa de esgoto, porém a prefeitura não tem verba suficiente para a obra. No entanto, possui R$ 10 mil para a realização de um vídeo, que se não for utilizado, será devolvido ao governo federal. Assim, a comunidade resolve produzir o vídeo com a garantia de que a prefeitura começará a construção das obras. A condição é que deverá ser um filme de ficção e que é necessário um roteiro para a liberação do dinheiro. Sem nenhuma noção de como produzir um filme, os produtores passam por situações hilárias, uma vez que as coisas são bem mais complexas do que eles imaginam.




O filme acompanha todo o planejamento e filmagem do vídeo e satiriza o próprio cinema. Afinal, etapas importantes como o roteiro, a montagem e as próprias atuações são deixadas de lado. Marina (Fernanda Torres), junto com seu marido Joaquim (Wagner Moura) são os maiores interessados na obra da fossa, já que ele começa a desenvolver uma micose por conta da poluição. Marina se preocupa mais em encher lingüiça no roteiro e preencher os 10 minutos de filmagem exigidos do que em tentar explicar as incoerências do roteiro planejado inicialmente, o que se assemelha àquele aluno que tenta fazer a lição de casa de qualquer maneira para se livrar da obrigação. Ela mesmo diz: “O roteiro não importa, só temos que fazer mandar esse roteiro para receber o dinheiro e para finalizar a obra”. Crítica aos cineastas que apresentam roteiros em troca da verbas do governo, sem a menor intenção de serem utilizados na filmagem depois.



Com isso a realização do “O Monstro do Fosso” acaba se tornando extremamente engraçada, com uma cena sendo colocada em cima da outra sem o menor planejamento. Silene (Camila Pitanga) e Fabrício (Bruno Garcia) conseguem ser divertidos apenas com a atuação completamente forçada de seus personagens no filme. Ao contrário de Joaquim e Marina, Silene e Fabrício têm objetivos diferentes com o filme. Fabrício quer usar a projeção para se tornar prefeito da cidade, enquanto Silene tenta sair dali o mais breve possível para brilhar pelo mundo inteiro com seu “talento”. Nada diferente da realidade. Ela nos diverte com sua ingenuidade e ele com o grande ciúme que sente por ela.

O resultado final de “O Monstro do Fosso” se torna uma crítica ainda maior à sétima arte. Com trechos engraçados, ação, “belas cenas de serem vistas” e uma linda mensagem no final, o filme acaba sendo um sucesso total na cidade, mesmo com uma história incoerente, confusa e sem o menor sentido. Muito semelhante a filmes que se tornam sucessos de público apenas pelo visual e não pelo conteúdo e que tudo o que menos importa é o roteiro, como pensou Marina. Ou seja, uma cutucada no público e na crítica que aplaude e admira essas projeções.



Também é preciso comentar sobre o personagem de Lázaro Ramos, Zico. Contratado para editar a produção (Joaquim e Marina perceberam que isso era realmente necessário depois de finalizarem as montagens), ele se mostra um tremendo de um aproveitador. Quer refilmar cenas, fica admirado com a beleza de Silene e tenta se aproveitar dela, pede uma boa grana para a edição e tenta sair com créditos pela direção do filme. O fato é que sabe do que o público gosta e tem uma boa lábia, por isso utiliza as cenas certas para que a produção se torne um sucesso. Assim, ele faz um discurso todo agradecido ao prefeito pelo incentivo que a produção recebeu e após a exibição do curta já anuncia novos trabalhos que estão por vir. Aliás, o próprio prefeito se aproveita da situação e, quando a obra na fossa é iniciada, já posa para fotos e faz um discurso como sendo o grande responsável pelo projeto, quando na verdade não era.

Jorge Furtado também critica a própria distribuição do dinheiro público destinado às artes. Eles possuem o dinheiro para fazer um filme, mas não há verbas para as obras no esgoto da cidade. Assim, os recursos de uma lei de incentivo acabam sendo a única saída, mesmo que errada, para a construção de obras essenciais para qualquer população. Uma grande distorção ao destino final que as verbas deveriam ser utilizadas. E mesmo quando possuem verbas, a realização das produções é difícil e a distribuição do trabalho é tão difícil quanto.




O que pode-se observar é que o próprio “Saneamento Básico – o filme” acabou sendo esquecido ou pouco observado por parte do público e da crítica e sofreu até mesmo com a estrutura de distribuição e divulgação do cinema no país. Filmado com recursos simples, o filme é uma das mais divertidas e ao mesmo tempo inteligentes comédias já realizadas recentemente pelo cinema nacional.

Confira o trailer:

1 comentários:

Igor Pinheiro disse...

Concordo plenamente. Saneamento Básico passou super despercebido pelos cinemas e é um filme excelente. Comédia na medida certa, diálogos ótimos, Camila Pitanga, críticas ótimas, Camila Pitanga... E várias outras coisas. A cena da etiqueta do vestido é uma das coisas mais geniais que eu já vi, juro.
Vejo sempre que o filme tá passando de novo e costumo recomendar bastante também, só elogios mesmo!

Obs.: E o filme tem a Camila Pitanga.

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