terça-feira, 25 de janeiro de 2011

CINECLUBE01 comenta: Gomorra

Existem filmes que nos impressionam pelo seu realismo. Filmes que nos fazem perguntar se aquela é mesmo uma obra de ficção e enxergar uma realidade que não vemos ou não queremos ver e por isso, possuem um impacto profundo perante a sociedade. Gomorra, filme italiano de 2008, dirigido por Mateo Garrone é um grande exemplo que nos choca imensamente só de pensar que tudo aquilo pode estar acontecendo neste exato momento.





A produção retrata o funcionamento da máfia napolitana chamada Camorra e as conseqüências de suas ações em diversas atividades que envolvem cidadãos comuns italianos. Acompanhamos a história de cinco personagens: o costureiro Pasquale tem seu trabalho pouco reconhecido e começa a se envolver com comerciantes chineses. Porém, essa decisão fará com que a máfia intervenha e faça de tudo para prejudicá-lo. Já Franco, que pertence a gangue não se importa nem um pouco de enterrar lixo tóxico produzido pelas empresas parceiras da máfia perto de casas de cidadãos comuns, mesmo que isso traga diversas doenças e mortes a essas pessoas. O jovem Totò é um menino que cresceu cercado pelas ações dos mafiosos e sonha em ser como eles para angariar dinheiro e poder. Mas aos poucos vai vendo que não há nada de glamoroso nas ações desenvolvidas pela gangue. Um veterano da organização se encontra no meio de uma guerra entre duas facções. E por fim, dois jovens, que enxergam em Tony Montana, de Scarface, um ídolo, tentam enfrentar os chefões da organização local e ganham sérios problemas com isso.



As 5 histórias são interessantes, mas falta ritmo para o filme. Contada de maneira lenta (típicas do cinema europeu), com longas cenas e planos-sequências, somos apresentados a cada uma das situações e esperamos por um possível entrelaçamento das tramas. Porém, ela não acontece. A intenção do filme é mostrar apenas como a máfia se organiza em diversos setores da sociedade, sem que tenham necessariamente uma ligação entre si. E o diretor Mateo Garrone consegue isso. Porém, os seus personagens parecem perder força e nos dão a impressão de terem pouco a oferecer dentro da história. Ao tentar ser um filme mais limpo, mostrando mais atitudes burocráticas e pouca ação o filme também perde em emoção por dar pouco sentido aos seus personagens. Tanto que para dar ao espectador o tamanho da influência da organização foram necessárias informações adicionais ao fim do filme.



Gomorra era uma cidade bíblica que teria sido destruída por Deus em função da vida repleta de pecados de seus habitantes. Ou seja, o nome traz uma visão bem pessimista sobre a região: de que não haveria nenhuma forma de futuro por ali por conta da ação dos mafiosos. E nesse ponto o filme cumpre seu papel, mesmo que de forma pouco atraente. Ficamos com a sensação de que é impossível viver sem a ação da organização presente diariamente na vida de todas as pessoas. Direta ou indiretamente, os habitantes acabam vivendo em função do trabalho da gangue, sem opção de escolha, já que a polícia também é completamente ineficiente. Uma máfia que não se incomoda nem um pouco em lucrar das formas mais ilegais possíveis, passando por cima de quem estiver em seu caminho. O próprio Roberto Saviano, autor do livro que deu origem ao filme, vive cercado de seguranças por conta das revelações de sua obra. É triste pensar que tudo isso é absolutamente real e talvez muito mais perverso do que era no seu auge na década de 80, uma vez que atua silenciosamente sem que haja qualquer forma de investigação ou punição aos criminosos.

Gomorra traz, mesmo que de forma imperfeita, todas essas reflexões a tona. Se não é um filme intrigante, empolgante, nos faz pensar e enxergar uma realidade invisível, mas que afeta a vida de milhares de pessoas.

Confira o trailer:

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