quinta-feira, 14 de outubro de 2010

CINECLUBE01 Comenta: Tropa de Elite 2

Tropa de Elite 2 já era um sucesso antes mesmo de estrear. Um dos filmes mais esperados do ano, a produção está sendo exibida em mais de 700 salas em todo o país e em menos de uma semana de exibição já foi assistido por mais de 2,7 milhões de espectadores. Apenas no fim de semana de estréia, o longa já teve cerca de 1,5 milhão de espectadores, recorde histórico no cinema nacional. E todo esse êxito não é para menos. O longa é extremamente perturbador e ao mesmo tempo simbólico por dizer respeito a uma realidade próxima de todos nós, seja dentro ou fora da polícia ou da política. Isso por conta das grandes discussões que estabelecem a respeito de várias temas. Tropa de Elite 2 é para mim um dos melhores filmes nacionais já realizados ao lado de Cidade de Deus e Central do Brasil.




Nessa continuação acompanhamos novamente a trajetória de Capitão Nascimento, 15 anos mais velho e, que após comandar uma operação do BOPE dentro do presídio de Segurança Máxima de Bangu I que acaba com o massacre de vários prisioneiros, acaba sendo exonerado de seu cargo pelo Governador do Rio de Janeiro para agradar aqueles que defendem os direitos humanos. Por outro lado, ele é promovido a subsecretário de Segurança Pública do Estado para agradar a população, que aprovou o massacre dos bandidos. Assim, Nascimento começa a combater o tráfico de maneira mais incisiva, mas não percebe que a corrupção e a ação livre dos bandidos continuam acontecendo de outra forma: um grupo de policiais militares começa a extorquir os habitantes comuns das favelas, em troca da sua “colaboração” e do apoio a políticos que começam a surgir dentro dos próprios órgãos responsáveis pela Segurança. Quando Nascimento descobre a verdade tem que bater de frente com o governo, a PM e pessoas de alto escalão.



O longa começa a partir da velha discussão do primeiro Tropa de Elite: vale a pena combater o tráfico e a violência com mais violência ainda? Desta vez entra no jogo os direitos humanos que tentam modificar a forma com que os policiais do BOPE agem ao enfrentar os bandidos. Nascimento continua com sua posição de que a guerra é a única forma de luta, embora ele não goste de utilizá-la o tempo inteiro. Ao mesmo tempo, vemos o protagonista da vez de uma maneira muito mais humana que anteriormente, reforçada principalmente pelas narrações em off que fortalecem suas convicções. Wagner Moura encarna novamente o Capitão Nascimento com grande intensidade e consegue transmitir uma maturidade muito maior ao seu personagem. Seu personagem é muito melhor explorado e portanto passa a ter nesse filme uma profundidade muito maior. Ao mesmo tempo em que exibe ser um sujeito durão e autoritário, também se mostra atrapalhado no contato com o seu filho, que o vê com desconfiança, e tem grandes dificuldades para exprimir seus sentimentos.



Com o decorrer do filme, o diretor José Padilha e o roteirista Bráulio Mantovani nos trazem uma situação onde o combate ao tráfico de drogas não é a principal ação para acabar com a violência. Agora a corrupção atinge os cidadãos diretamente em troca de um voto nas eleições ou através de farsas que possam comprovar as boas ações dos políticos que tentam se reeleger. Ou também de qualquer outra forma de favorecimento individual aos policiais que participam do “sistema”, expressão típica do filme. Nascimento percebe que não é a violência que resolverá todos esses problemas. É algo muito mais profundo sustentado pelos grandes detentores do poder e não por simples traficantes armados. O interesse individual de cada um é tudo o que conta aqui. Os políticos, claro, são os primeiros a serem lembrados nesse aspecto. Nenhum deles se importa com as mortes ou os absurdos que ocorrem embaixo de seus narizes desde que possam continuar com o poder e dinheiro e navegar de iate pelo belo mar carioca. Muitas vezes se omitem ou até mesmo estimulam situações de violência, ditas necessárias por eles para acabar com a violência. Mas com qualquer sinal de mérito são os primeiros a assumir o sucesso e com isso, ganhar o prestígio e a confiança do público. Nem que para isso seja necessário estar numa roda de pagode no meio da favela. Mas eles não são os únicos “vilões” da história. Se agem assim, é porque a população os alimenta. Se uma pessoa se via beneficiada por determinado político, mesmo que com métodos absolutamente desonestos, é nele em quem ela vai votar e o que menos importa é o interesse da sociedade.



Além disso, o filme também critica fortemente a atuação da mídia. Se Fortunato faz um belo discurso teatral contra a violência em seu programa de televisão, fora das câmeras ele é um dos principais articuladores da milícia que corrompe os moradores e colabora para a corrupção. Com os supostos bons resultados da atuação da polícia dentro das favelas, ele se torna um símbolo da luta contra os bandidos e aproveita para se eleger deputado estadual. Em certo momento, também vemos que uma jornalista descobre um grande esquema fraudulento em prol da reeleição do atual governador e acaba sendo assassinada. Seu chefe simplesmente se recusa a publicar qualquer informação sobre o assunto, já que é parceiro do atual governo. Porém, se temos a impressão de que todos estão envolvidos nessa sujeirada toda, Nascimento e também o deputado Fraga aparecem para nos desmentir. Eles se tornam os maiores símbolos de uma briga do bem contra o mal, mesmo que com diferentes métodos. Os dois representam a luta de uma minoria honesta contra uma maioria esmagadora absolutamente interesseira, embora estivessem de diferentes lados no começo da produção. Uma perspectiva pessimista dentro de uma luta desleal. Afinal como disse Nascimento em pronunciamento para os deputados da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro: “Metade dos que estão aqui deveriam estar na cadeia. Ou melhor, metade não. Deve ter aqui no máximo uns 6 ou 7 ficha-limpas”.



Com um roteiro extremamente dinâmico, intenso e focado em um personagem específico, Mantovani e Padilha criticam com grande inteligência e coragem diversos setores da sociedade. Todos os atores estão muito bem em seus papéis com destaques para Irandhir Santos, que interpreta o Deputado Fraga e André Mattos, que vive o deputado Fortunato, extremamente hipócrita, mau-caráter e manipulador. A direção de Padilha também é excelente. Sem a mesma preocupação de mostrar o tempo inteiro os conflitos entre policiais e bandidos, o diretor consegue transmitir grande tensão, mesmo com momentos descontraídos com a preocupação de estimular a reflexão e provocar o espectador.



Afinal, como acabar com o “sistema”? Também somos responsáveis por ele, embora não acreditemos nisso. Infelizmente, todos esses políticos corruptos representam a realidade da população brasileira. Muitos podem ficar indignados, mas fariam exatamente o mesmo que eles fazem se estivessem no poder, o que é extremamente fácil de comprovar em simples ações do dia-a-dia. Mas se tentar uma conscientização da população para um voto pautado nos interesses da sociedade é algo difícil de ser realizado, outra solução, muito mais pontual, é dada pelo próprio Nascimento no mesmo discurso para os deputados: “A PM do Rio tem que acabar”. Uma frase que pode provocar ainda muitas discussões, assim como outras tantas do filme. No começo do longa, é exibida a mensagem: “Apesar das semelhanças com a realidade, esta é apenas uma obra de ficção”. Mas uma ficção muito mais próxima da realidade do que podemos imaginar.

Confira o trailer do filme:

1 comentários:

O FALCÃO MALTÊS disse...

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