segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Cidade de Deus

Cidade de Deus é um filme de 2002, que consagrou Fernando Meirelles como um dos melhores diretores brasileiros. A produção é um triste e realista retrato da sociedade brasileira dentro da favela Cidade de Deus, uma das mais perigosas do Rio de Janeiro. Depois de Cidade de Deus o gênero retratando as favelas passou a ser muito copiado no cinema brasileiro, porém sem o mesmo êxito. A trama conta a história da disputa pelo tráfico de drogas na favela entre Zé Pequeno e Mané Galinha a partir da narração de Buscapé, menino que sonha em ser fotógrafo profissional e sair da vida na favela.




A partir do filme podemos extrair diversas questões que refletem uma realidade escondida de todos nós ou que muitas vezes não queremos enxergar. Nem mesmo, o governo que, em vez de fazer algo para solucionar o problema dos desabrigados, resolve mandar cada vez mais gente para a favela, sem qualquer tipo de melhoria de vida para elas. É assim que Buscapé chega a Cidade de Deus. Seu irmão começa a praticar roubos e a participar do tráfico de drogas. Mas ele acaba morrendo, mesmo destino da maioria que estão nesse meio. Assim, a disputa pelas bocas de fumo da favela começa a se acirrar quando o temido Zé Pequeno resolve tomar o controle do tráfico local. Com a morte de Bené, parceiro de Zé Pequeno e único capaz de controlar as disputas entre as gangues, a guerra dentro de Cidade de Deus entre Cenoura e Mané Galinha contra Zé Pequeno se torna extremamente violenta e não poupa ninguém. Inocentes são executados sem nenhuma forma de piedade e os moradores passam a se dividir por vingança ou proteção ao grupo oposto. As relações construídas entre os traficantes e seus subordinados é baseada no medo, na vingança e na ameaça, onde apenas um olhar torto é capaz de desencadear uma briga feia. Seja na guerra ou na paz, o tráfico governa uma favela onde é impossível a entrada de alguém de fora. Mas que muitas vezes é sustentado pela classe média e rica da zona Sul, que deseja apenas fumar um baseado inocente.



Meirelles também não hesita em mostrar como é realizada a venda de drogas e armas e de falar sobre a corrupção policial, que permite com que os bandidos continuem agindo livremente e impede um combate efetivo aos traficantes. A imprensa também continua tratando o assunto de longe, sem grandes envolvimentos ou com uma postura sempre sensacionalista de chocar o seu público. Buscapé é uma exceção no meio em que vive. Sem querer se envolver no meio que matou o seu irmão e sem coragem para praticar assaltos, Buscapé sonha em se tornar fotógrafo, apesar de todas as dificuldades impostas pelo local onde vive, como o próprio preconceito que sofre por ser um morador de favela. Mas ao contrário dele, milhares de outras crianças vivem sem perspectiva de vida. Essas fumam, roubam, matam, convivem e participam constantemente do tráfico e da bandidagem, possuindo um poder muito maior do que os grandes traficantes. E, com isso, garantirão o fortalecimento do tráfico e a certeza de que essa é uma guerra ainda muito longe do fim.



A estrutura da narrativa também é muito interessante. O filme é contado através da narração de Buscapé e dividido entre as histórias dos principais personagens, como se fossem capítulos. Assim, podemos acompanhar os diferentes pontos de vistas dos personagens em um mesmo acontecimento. Com essa estrutura não-linear, o excelente roteiro de Bráulio Mantovani permite traçar um perfil detalhado e entender cada um dos personagens. A direção de Fernando Meirelles e a edição são extremamente dinâmicas e não cansativas, já que são utilizados cortes rápidos, congelamento de cenas e planos de câmera eficientes para sinalizar uma passagem de tempo, um combate entre duas gangues ou com a polícia ou para simplesmente aumentar a tensão em uma cena. Também merecem destaque as ótimas atuações dos atores estreantes no cinema e originários da própria favela. Alexandre Rodrigues, como Buscapé, Leandro Firmino da Hora, como Zé Pequeno e Phellipe Haagensen, como Bené interpretam seus personagens com grande naturalidade, o que confere um aspecto de veracidade ainda maior à produção. A trilha sonora e adequada a cada um dos momentos do filme e bem variada como “Metamorfose Ambulante” de Raul Seixas, “Nem Vem que Não Tem” de Carlos Imperial e “Kung Fu Fighting” de Carl Douglas.



Muitas pessoas podem alegar que Cidade de Deus é muito violento. Mas por trás da violência e de tantos assassinatos, existe uma verdadeira discussão sobre os diversos problemas sociais que nosso país enfrenta até hoje e fornece um retrato da nossa sociedade. É um filme extremamente inteligente, perfeito do começo ao fim e passível de uma longa reflexão após sua exibição.

Confira o trailer:
 

2 comentários:

Hugo disse...

Como você bem escreveu, muitas pessoas não gostam do filme pela violência, mas isso não é motivo para diminuir a força do longa.

Na minha opinião é o melhor filme brasileiro já feito, tecnicamente perfeito em todos os aspectos.

Até mais

Anônimo disse...

maluco isso e show

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