quarta-feira, 2 de junho de 2010

Videoteca Básica - Central do Brasil


                Sempre senti falta no cinema brasileiro de um filme que retratasse a verdadeira realidade do nosso país. Um filme que fugisse do tema tráfico de drogas, polícia, crimes e a pobreza das favelas contrastando com a riqueza dos mais ricos de forma estereotipada e até mesmo preconceituosa. Um filme que fugisse desses temas já completamente clichês. Central do Brasil é esse filme. Acompanhamos a história de Dora (Fernanda Montenegro), professora aposentada que ganha a vida escrevendo cartas para pessoas analfabetas na Central do Brasil estação de trem do Rio de Janeiro. Ela se vê envolvida com a vida do menino Josué (Vinícius de Oliveira) quando a mãe desse morre atropelada em frente ao local onde ela trabalha. O menino fica sozinho na cidade e após relutar por um momento ela resolve ajudá-lo a viajar para procurar o pai do menino no interior do Nordeste.



                O filme impressiona por sua simplicidade. De modo prático, é retratada a vida na cidade grande com trens lotados e gente apressada, no interior do nordeste com rituais religiosos e a luta diária de milhares de pessoas para conseguir sobreviver. Ao longo do filme nos emocionamos com a relação entre Dora e Josué. É tudo muito sincero e real. No começo, Dora procura não se envolver com mais um problema em sua vida e tenta se livrar dele. O tempo todo Dora tenta desiludir Josué, alertando-o de que seu pai é uma pessoa ruim, o que é nada mais é uma forma de demonstrar a descrença que ela possui pelas pessoas que já a fizeram sofrer. Porém, alertado pela amiga Irene, ela sente pena de Josué e, sem enxergar outra opção, se envolve numa busca incessante para encontrar o pai do garoto. Essa é a única saída vista por ela para se “livrar” da vida do garoto. Mas com o tempo ela se envolve de tal forma com ele que não consegue mais abandoná-lo e vê seu único objetivo de vida passa a ser realizar a felicidade do menino de enfim encontrar um pai. Porém, tudo parece dar errado e isso parece uni-los cada vez, envolvendo o espectador de tal forma que nem percebemos o tempo passar. Quando estão próximos de encontrar a família de Josué, Dora finalmente se mostra uma pessoa sensível lembrando-se dos bons momentos que também passou com seus pais. Coisa que só a alegria e a naturalidade de uma criança conseguem despertar, até mesmo naquela pessoa em que acreditamos não possuir mais nenhum motivo para viver. 



                Tecnicamente, o filme também é excelente. A fotografia escura da cidade grande traz um sentimento de solidão e tristeza. Já a fotografia bem mais clara do nordeste retrata toda a pobreza e o sofrimento na vida de cada uma daquelas pessoas, mas, ao mesmo tempo, transmite um vasto horizonte de esperança na vida dos moradores. Fernanda Montenegro está impecável no papel. Sentimos repulsa por conta de suas atitudes, mas acabamos torcendo por ela ao presenciar o quanto ela sofre ao longo da história. Já o menino Vinícius de Oliveira interpreta Josué com uma grande espontaneidade. Ele se mostra um menino sonhador, parece ser ingênuo, mas é muito mais inteligente e maduro do que esperamos. Os cenários, que trazem um belo panorama de diferentes locais do Brasil, foram muito bem escolhidos e valorizados pela ótima direção do competente Walter Salles. Merece destaque os sinceros e enriquecedores depoimentos das pessoas que pedem a Dora que escreva as cartas. A esperança do povo se mostra muito maior do que o sofrimento que as acomete. Central do Brasil é o melhor retrato do Brasil em que vivemos através de uma história fantástica. Não é a toa que foi indicado a melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro) no Oscar e ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Merece ser assistido muitas vezes.

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