quarta-feira, 19 de maio de 2010

Videoteca Básica - Dogville


Dogville é um filme fantástico. O diretor Lars Von Trier realiza com grande simplicidade e pouquíssimos recursos um retrato fiel que desmascara todas as verdades sobre as relações entre os seres humanos. A história se passa durante a Grande Depressão nos Estados Unidos em uma pequena cidade chamada Dogville, isolada do mundo inteiro. Grace é uma jovem que foge de mafiosos e acaba parando na cidade. A polícia procura por ela, mas os habitantes de Dogville aceitam a proposta de Tom para ajudá-la escondendo-a no local em troca de diversos serviços para os moradores. Aos poucos a polícia vai intensificando a busca e com isso, os habitantes se vêem obrigados a exigir ainda mais de Grace em troca do perigo constante que estão correndo ao protegê-la.


A partir do momento em que começam a se sentir prejudicados, os moradores de Dogville vão abandonando as aparências de boas pessoas e mostrando quem elas realmente são. A exploração de Grace se mostra necessária para o próprio bem-estar das pessoas que lá moram. Mesmo quando tem a opção de deixá-la ir embora, todos preferem continuar tendo Grace como uma escrava. Sob a condição e explorada, ela é vítima de uma série de mentiras que a colocam como fonte de todos os problemas que envolvem os habitantes do local sem ter o direito de protestar ou reclamar.  Esse enredo já constituiria uma história e tanto, mas o grande diferencial da produção é a ausência de cenários. É a primeira coisa que nos chama a atenção quando vemos qualquer cena. Tudo o que há são riscos no chão para marcar as casas, ruas e demais objetos e algumas mesas e camas. É esse vazio que nos dá a impressão de falta de privacidade e de que nenhum tipo de segredo entre qualquer pessoa pode ser guardado. Ao mesmo tempo, tudo parece acontecer embaixo dos narizes de todos sem que ninguém perceba nenhuma atitude suspeita. 



Dogville traz ao cinema a união dos mais diversos tipos de arte. Durante o longa, temos um grande estudo psicológico dos personagens marcado por uma narração objetiva, que nos deixa claro cada inquietação ou pensamento que cada misterioso personagem possui, o que é uma marca característica da literatura. A falta de cenários e o fundo branco de dia e preto de noite, que dão à cidade uma grande sensação de solidão em relação ao resto do mundo, trazem elementos do teatro. E a nervosa movimentação da câmera, que traz um sentimento de desconforto, é típica de um cinema até mesmo mais documental ou amador. O desempenho dos atores também é fenomenal especialmente Nicole Kidman. A atriz traz a Grace um ar de mistério por conta de seu passado. Sua ingenuidade que lhe permitiu acreditar que os moradores daquela simpática cidade fossem pessoas melhores do que as que ela conhecia e com isso vem a tona o sentimento natural de decepção, apesar de ela se mostrar muitas vezes acostumada ao sofrimento. Essa decepção é ainda maior em relação a Tom, que se mostrava sempre tão carinhoso e prestativo, mas que mostrou ser humano demais. Grace revela em diversas condições a verdade sobre muitos de seus moradores. E é isso afinal que tanto os incomoda. A mentira é para eles parece muito mais confortável. 



Tudo isso é mais próximo do que imaginamos. Afinal, Dogville pode ser qualquer outro lugar do mundo. O retrato do diretor Lars Von Trier nada mais é do que um panorama perfeito sobre um ser humano completamente individualista e oportunista, e que, em muitas vezes parece ser um retrato de nós mesmos.

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